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Elio de Angelis, segunda parte

por Tiago Crispim, em 19.05.11

Terminei a primeira parte da biografia de Elio de Angelis no Grande Prémio da Áustria, onde o italiano obteve a sua primeira vitória na F1, mas para continuar a mostrar quem era de Angelis, tenho de voltar ao início dessa temporada de 1982; à famosa greve dos pilotos.

 

Nessa altura a FIA inseriu umas cláusulas na Superlicença que é obrigatória para correr na Fórmula Um. Os pilotos descontentes fizeram uma greve no fim-de-semana em que se disputaria o primeiro GP da época, em Kyalami, África do Sul. Os grevistas mantiveram-se juntos enquanto o seu representante, Didier Pironi (Ferrari) negociava com a FIA e as equipas. Foi algures nesse dia que, para passar o tempo, Elio de Angelis deu um recital de piano improvisado aos outros pilotos.

 

 

O italiano vinha de uma família rica, estudou nos melhores colégios em Roma e teve formação clássica de piano. Como ele disse numa entrevista, “o piano é o meu segundo amor” mas acrescentou depois “não acho que consiga estar satisfeito com dois amores na minha vida”. Apesar de ser considerado muito bom músico, Elio queria concentrar-se nas corridas.

 

No ano de 1983 o italiano teve um péssimo ano na Lotus, que mudou os motores Cosworth para Renault. Ele chegou a ter uma proposta para se mudar para a Williams antes de começar a temporada, mas como um negócio para garantir um motor turbo ainda não era garantido, optou por manter-se na Lotus. Os motores turbo eram os mais rápidos e Elio não quis arriscar assinar por uma equipa que ainda não tinha certezas.

 

Assinou a extensão de contrato no dia em que venceu o primeiro GP. Má decisão. Terminou duas corridas em toda a temporada, com um nono e quinto lugares. A Williams mudou dos motores Cosworth para os potentes Honda e ficou em quarto no mundial de construtores, contra o oitavo lugar da Lotus.

 

Em 1984 a Lotus com motores Renault saiu-se muito melhor, tal como de Angelis. O italiano não venceu GPs e o seu melhor resultado foi um segundo lugar em Detroit mas isso bastou para garantir o terceiro lugar no mundial de pilotos, atrás de Niki Lauda e Alain Prost.

 

Até esta altura, o companheiro de Elio de Angelis na Lotus tinha sido Nigel Mansell. Os dois pilotos tinham uma relação típica de companheiros de equipa. Mansell queria bater o segundo piloto e mostrar-se melhor. O italiano queria manter-se como primeiro piloto.

 

 

 

Depois do GP de Dallas de 1984, quando de Angelis criticou Mansell, a tensão com os dois pilotos aumentou, mas ainda durante a temporada, ambos conversaram e resolveram as suas diferenças. “Ele sabe que não sou uma pessoa fácil e percebe que o fiz passar momentos difíceis porque obviamente acho que sou mais rápido. Entretanto ele pensa que é mais rápido. O importante é que quando estamos juntos devemos acordar em certas coisas, como a afinação do carro”. Ainda assim, no final de 84 soube-se que Mansell ia sair da Lotus. O novo companheiro de equipa passava a ser Ayrton Senna, acabado de sair da sua primeira temporada na F1.

 

Na mesma entrevista em que de Angelis falou se Mansell, também falou do seu então futuro companheiro de equipa. “Obviamente é um piloto rápido. Sei que ele vem de uma família que o encorajava a correr e sei que ele corria em karts desde muito novo, por isso começou nas melhores condições. Parece muito feliz na Lotus. Como disse, ficava feliz se Nigel tivesse ficado com a equipa, mas se eu decidir ficar, honestamente não vejo razão para Ayrton e eu trabalharmos juntos bem.”

 

Nesse ano de 1985 de Angelis começou bem. Terceiro lugar no Brasil, quarto em Portugal e depois a sua segunda vitória na F1.

Foi no GP de San Marino, circuito de Imola, numa corrida atípica em que apenas cinco carros terminaram a prova. Aliás, quem cortou a meta primeiro foi Alain Prost, que foi posteriormente desqualificado por ter o carro mais leve do que as regras permitiam. Por isso a segunda vitória de Elio de Angelis nem sequer teve direito a primeiro lugar no pódio.

 

A partir de metade da temporada Ayrton Senna começou a ter melhores resultados. Elio era o primeiro piloto da equipa mas à medida que a época avançava, o piloto italiano percebeu que a Lotus estava a favorecer Senna. Chegou mesmo a afirmar que agora percebia o que Mansell tinha passado quando era seu companheiro de equipa. O brasileiro terminou o campeonato em quarto, cinco pontos à frente do italiano. 

 

 

 

A gota de água para de Angelis decidir abandonar a Lotus foi uma sessão de treinos dois dias depois do Grande Prémio do Mónaco. O italiano era primeiro no campeonato depois da quarta prova, à frente de Prost (que venceu nesse ano) e Michele Alboreto. Nessa sessão de treinos a equipa só deixou Elio correr três voltas em detrimento de Ayrton. O piloto italiano decidiu nessa altura deixar a Lotus e acusou Peter Warr, na altura dono da equipa, de proteger e encorajar Senna.

 

Elio de Angelis era conservador e tradicional. Começou a carreira na F1 a vencer um processo contra Ken Tyrrell sobre uma quebra de contrato (era suposto ele ter ido para a Tyrrell) e perdeu contra a Shadow quando se mudou para a Lotus. Na equipa dos carros pretos e dourados começou por ser companheiro de equipa de Mario Andretti e sempre soube o seu lugar. Nunca competiu agressivamente contra o piloto número um da equipa.

 

Isso explica a atitude de Elio perante o favorecimento da Lotus a Senna. Escolheu a Brabham, que cobiçava desde que o seu amigo Nelson Piquet venceu os títulos em 1981 e 1983. O brasileiro voltaria a ganhar em 1987 com a Williams, equipa para a qual se mudou em 86. 

Mais uma vez de Angelis tomou uma má decisão na escolha de equipas. Nesse ano a Lotus ficou em terceiro no mundial de construtores e no ano seguinte venceria o título com Senna.

 

O Brabham–BMW BT55 que Elio pilotou na temporada de 1986 não teve um nascimento fácil. O conceito era revolucionário com a sua posição de condução reclinada e o motor deitado, mas a construção do carro começou demasiado tarde e a equipa debateu-se com problemas na caixa de velocidades e no sobreaquecimento do óleo. Na primeira corrida, no Rio de Janeiro, de Angelis terminou em oitavo e o seu companheiro de equipa Riccardo Patrese abandonou ao fim de 21 voltas com uma fuga de água.

 

 

Na prática o carro era um desastre na pista. Simplesmente não teve tempo suficiente para ser desenvolvido. O carro tinha problemas na distribuição de peso e na tracção, mas principalmente o motor parecia não ter força suficiente.

 

Elio de Angelis não terminou nenhuma corrida depois de Interlagos. Os três GPs seguintes foram desapontantes e três dias após a corrida no Mónaco, onde o italiano desistiu antes de ter chegado a um quarto da corrida e na última posição, a equipa decidiu testar o carro no circuito francês de Paul Ricard.

 

No dia 14 de Maio de 1986, Elio de Angelis já tinha feito 17 voltas quando a asa traseira do seu Brabham se soltou na zona dos “esses” rápidos da Verrerie. O carro voou por cima da barreira de protecção e aterrou ao contrário. Na altura os testes privados das equipas não exigiam a presença de equipas médicas no local.

O carro começou a pegar fogo e foram os mecânicos da Brabham que conseguiram tirar de Angelis do seu cockpit, dez minutos depois do acidente. Mas o helicóptero que o levou para o hospital só chegou depois de mais 30 minutos.

 

A construção do carro era boa e o piloto não aparentava lesões além de queimaduras nas costas e uma clavícula partida, mas no hospital descobriram que de Angelis tinha sofrido graves lesões cerebrais por ter ficado sem oxigénio quando o fogo deflagrou. A situação era irreversível. Elio de Angelis morreu no dia seguinte.

 

Como sempre melhoraram as condições na pista e na F1. Mas a homenagem mais bonita a Elio de Angelis foi em 1989, quando Jean Alesi correu pela primeira vez na Fórmula Um, curiosamente no circuito de Paul Ricard. O franco-italiano mostrou ao mundo as cores do seu capacete, inspiradas num piloto que ele tanto admirou…

 

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publicado às 16:03

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O Volta Mais Rápida é um blog sobre F1. O autor é um curioso, apaixonado pela Fórmula Um desde que se lembra, embora a sua carreira ao volante se fique pelos karts e pela Playstation. Trabalhou em alguns meios de comunicação como jornalista e hoje é técnico de rádio na Universidade Autónoma de Lisboa. Neste espaço quer dar a conhecer melhor o universo deste desporto e talvez despertar a atenção e a curiosidade de alguns interessados.



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